terça-feira, 7 de julho de 2020

Notas para uma história da Filatelia.

Filatelia é o nome dado à prática de colecionar e estudar selos e demais documentos ligados à história das comunicações postais.  Essa é a minha definição.

Contudo, há outras definições possíveis para esse tipo de colecionismo. Em seu Manual de Filatelia, Pereira e César, por exemplo, compreendem a Filatelia como "a arte, a ciência, a mania de colecionar selos postais e peças que tenham relacionamento com o franqueamento postal (peças filatélicas)" [1].

Não existe uma definição oficial de Filatelia e, aqui entre nós, os filatelistas não ligam muito para isso. Porém, existe algo que é recorrente em todas as definições de Filatelia que até hoje eu li: a relação entre colecionar selos postais e a cultura geral.

Costumo dizer que a Filatelia é um convite ao estudo. Pois, na medida que o filatelista se envolve com os seus selos, ele sente a necessidade de adquirir, cada vez mais, conteúdos e saberes relacionados com o país ou o tema que coleciona.

Mas, quando tudo isso começou? A maioria dos filatelistas domina com maestria os inúmeros aspectos do colecionismo filatélico. Conseguem, por exemplo, traçar os caminhos pelos quais uma correspondência do século XVI percorreu até chegar ao seu destino.

Contudo, o que sabemos sobre a história da Filatelia?

Tal como as demais atividades humanas, a prática do colecionismo filatélico tem historicidade que possui uma expressão material, a exemplo, os objetos que ela envolve, e outra imaterial, que corresponde aos conhecimentos, às técnicas e mesmo os reflexos coletivos e individuais que ser filatelista produz.

Ao responder por que e para que estudamos história, o professor Caio Boschi respondeu, entre outras coisas, que estudamos o passado através da História para "proporcionar aos homens viverem melhor o seu presente" [2]. Vou ao encontro dessas palavras e digo mais: em parte, estudamos história para compreendermos quem nós somos.

Logo, além da preservação de todo um patrimônio histórico, uma história da Filatelia contribui para compreendermos as origens e as transformações da nossa própria prática, tantos nos seus aspectos materiais quanto imateriais.

Então, que tal sabermos mais sobre essa história?

Notas:

[1] - PEREIRA, A. C.; CÉSAR, C. D. Manual de Filatelia. s.n.t., p. 1.
[2] - BOSCHI, Caio. História: por que e para quê? Nossa história, Rio de Janeiro, v. 1, n. 11, p. 98, set. 2004.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Selos sobre discos voadores?

Observe a imagem a seguir:

Figura 1: sextilha de cinderelas alusivas aos supostos discos voadores alemães da época da Segunda Guerra Mundial. Fonte: Filatelia Ananias, Facebook.

De vez em quando, essa imagem aparece em blogues ou em redes sociais dedicados à Filatelia. A respeito dela, há muitas informações desencontradas, imprecisas e mesmo falsas. Teriam os responsáveis pelas emissões postais dos Correios da Alemanha, durante o regime nacional-socialista e a Segunda Guerra Mundial, pensado em lançar uma série comemorativa sobre "discos voadores"? Ou, tudo isso não passa de uma brincadeira que alimenta décadas de especulações sobre um suposto desenvolvimento de discos voadores pelo cientistas alemães?

Foge ao escopo desta postagem abordar as temáticas dos programas de armas secretas alemãs da Segunda Guerra Mundial e da vida extraterrestre, embora boas informações sobre esses assuntos podem ser coletadas nos trabalhos de Brian Ford [1] e Marcelo Gleiser [2].

Apesar de bonitinha e divertida, essa sextilha não tem relação alguma com as emissões regulares, comemorativas e oficiais dos Correios alemães da época do Terceiro Reich. Não há referência alguma nos catálogos Michel a seu respeito, assim como nos catálogos universais Yvert e Scott.

Embora a fonte usada na impressão de Deutsches Reich, nome oficial da Alemanha entre 1871 e 1945, seja semelhante às fontes usadas em emissões comemorativas alemãs lançadas entre 1940 e 1945, a exemplo da série alusiva ao Dia das Forças Armadas  de 1943 (Mi., 831-842), nunca foram emitidos selos de 9 e 16 centavos de Marcos. Além disso, há incoerência entre os valores faciais dos supostos selos e suas respectivas cores com as quais foram impressos.

Mas, então... o que essas imagens representam?

Até a publicação desta postagem, o autor não conseguiu a apurar com precisão irrefutável as origens desse material. É certo que não são mais que figurinhas ou, na melhor das hipóteses, de "cinderelas", isto é, estampilhas produzidas por particulares para atender determinado objetivo propagandístico. Elas também são chamadas de "vinhetas" e não possuem valor postal algum, apesar de colecionáveis.

Quem seria o autor dessas "cinderelas"?

Em algumas referências a respeito delas encontradas em blogues e grupos de redes sociais, a autoria é atribuída ao ufólogo americano Jim Nichols. Já em outras, a divulgação dessas figurinhas está ligada à uma revista de Ufologia dos Estados Unidos. Contudo, tudo muito vago, sendo difícil checar os fatos [3].

Enfim, certamente não se tratam de selos postais ou qualquer outro material relacionado ao projeto de um selo postal - esboço, ensaio ou prova. Não constam em catálogos e muito menos são reconhecidos pelas entidades filatélicas alemãs.

Mas, sim, são muito legais e alimentam o imaginário social sobre discos voadores, OVINIS e... "aliens"!!!

Nada mais que isso.

Notas:

[1] - FORD, B. (1973) - Armas secretas alemãs. Renes. Rio de Janeiro.
[2] - GLEISER, M. (2006) - Poeira das estrelas. Globo. Rio de Janeiro.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Vitória dos Aliados!

A vitória aliada na Europa, em maio de 1945, foi celebrada pelo então Departamento de Correios e Telégrados - DCT com duas emissões comemorativas lançadas em 8 de maio e 17 de julho de 1945 [1].

Sobre o envelope que faz parte desta postagem foram fixados os cinco valores que formam a série lançada em 8 de maio, denominada "Vitória dos Aliados" [2].

Figura 1: frente do envelope. Coleção do autor.

Foram aplicados sobre esses selos um carimbo comemorativo (CBC) e uma obliteração mecânica acompanhada por uma flâmula com a seguinte frase: "Glória aos povos que forjaram a vitória". Essa frase também aparece no CBC.

Ainda sobre o carimbo comemorativo, Rolf Harald Meyer explica que:

"Os correios determinaram o uso dos selos do Dia da Vitória quando deveria ser usado um carimbo especial nas seguintes cidades: Bahia [sic.], Belém, Belo Horizonte, Fortaleza, Natal, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. Em poucas cidades foram usados os carimbos no dia 8; por determinação superior, essa data também foi carimbada ainda que posteriormente" [3].

Notas:

[1] - MEYER, P. (2013) - Catálogo de selos do Brasil 2013. 58. ed. Editora RHM Ltda. São Paulo, p. 353.
[2] - Ibidem, p. 353.
[3] - MEYER, R. H. (1985) - Catálogo de selos Brasil 85. 43. ed. Edição do autor. s.l., p. 172.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Selos semipostais?

O catálogo universal de selos Scott possui uma categoria que é um tanto estranha na filatelia brasileira: selos semipostais.

Tratam-se daquilo que nós chamamos de "sobretaxados". Isto é, um selo em que é cobrado um valor extra cujo destino é algum auxílio financeiro específico. No  Brasil, esse tipo de emissão não é muito recorrente, especialmente quando comparamos com outros países, tais como a Alemanha e a Suíça.

Legião Holandesa.

Em 1. de novembro de 1942, os Correios da Holanda emitiram dois blocos de selos postais destinados à coleta de fundos para a Legião Holandesa (Nederlandsch Legioen) engajada nas Waffen-SS.

Figura 1: Sct., Holanda, emissões semipostais 144 e 145. Coleção do autor.

De acordo com o historiador britânico John Keegan, 40 mil holandeses serviram como voluntários nas Waffen-SS, durante a Segunda Guerra Mundial [1].

Nota:

[1] - KEEGAN, J. (1973) - Waffen-SS. Renes. Rio de Janeiro, p. 96.

domingo, 21 de junho de 2020

De Braunschweig para Bad Harzburg, 1936.

Envelope circulado entre as cidades alemãs de Brunsvique (24/06/1936) e Bad Harzburg - sem data de chegada registrada.

Figura 1: frente do envelope. Coleção do autor.

Carta simples, cuja franquia foi paga com um par de selos postais sobretaxados de 6 centavos que pertencem à série comemorativa alusiva aos Jogos Olímpicos de Verão em Berlim (Mi., DR, 611). O valor facial total (que não considera as sobretaxas), 12 centavos, corresponde ao valor exato para cartas em trânsito de longa distância com até 20 gramas de peso vigente na época.

Ao lado esquerdo do carimbo datador, foi aplicada uma flâmula de propaganda, com a seguinte frase: "Vermeidet rundfunk störungen!", que em uma tradução livre para o português: "Evite interferências radiofônicas".

sábado, 20 de junho de 2020

Aniversário de 50 anos da Revolta Nacional Eslovaca (1944 - 1994).

Eslováquia é um país localizado no leste da Europa e que faz fronteiras com a República Tcheca, a Áustria, a Hungria, a Ucrânia e a Polônia. A capital da Eslováquia é a cidade de Bratislava, que minha esposa e eu tivemos o prazer de conhecer. Lembro da excelente cerveja que bebemos, da deliciosa comida que desfrutamos e dos automóveis da marca Skoda circulando pelas ruas da cidade. 

A Eslováquia está cercada por terras, sendo seu território pequeno, cuja área total é de 49.035 km2, sendo sua população estimada em 5.457.012 habitantes. Caramba! A população do Estado em que eu moro, Santa Catarina, é maior que a população eslovaca: 6 milhões e 727 mil habitantes aproximadamente.

A Revolta Nacional Eslovaca.

Próximo do início da Segunda Guerra Mundial (1939 - 1945), a Eslováquia se separou da Checoslováquia, uma República fundada em 1918, como parte da reorganização política da Europa após o término da Primeira Guerra Mundial (1914 - 1918).

Durante a Segunda Guerra Mundial, a Eslováquia foi um Protetorado alemão governado por Jozef Tiso (1887 - 1947), um sacerdote católico considerado colaboracionista.

Em 29 de agosto de 1944, foi iniciada uma rebelião militar contra Tiso, que ficou conhecida como a "Revolta Nacional Eslovaca", sendo seus líderes os Generais Rudolf Viest (1890 - 1945) e Ján Golian (1906 - 1945), cujos rostos ilustram a emissão comemorativa que faz parte desta postagem.

A revolta foi sufocada em 28 de outubro de 1944, sendo um importante capítulo da história da Eslováquia durante a Segunda Guerra Mundial.

Figura 1: Aniversário de 50 anos da Revolta Nacional Eslovaca. Coleção do autor.

Segundo o catálogo universal de selos Scott, em 01 de agosto de 1994, os Correios da Eslováquia lançaram uma emissão comemorativa ao aniversário de 50 anos da Revolta Nacional Eslovaca.

A série é formada por dois valores, impressos em talho-doce (calcografia), sendo ilustrada com imagens dos líderes da rebelião e referências às pessoas que pegaram em armas contra os alemães e o governo colaboracionista de Tiso.

No sistema Scott, esses dois valores são representados pelos números 189 e 190.

domingo, 21 de abril de 2019

Centenário do Armistício (1918 - 2018) / "Remembrance Poppy".

Observe atentamente o bloco a seguir (figura 1).

Figura 1: bloco canadense alusivo ao centenário do armistício de 1918. Coleção: Wilson de Oliveira Neto (São Bento do Sul, SC).

Este bloco faz parte das emissões dos Correios do Canadá comemorativas ao aniversário de cem anos do armistício que resultou no fim da Primeira Guerra Mundial, em 1918. Durante o ano passado, diversos países celebraram a efeméride com inúmeras emissões comemorativas.

Um belo bloco, não é mesmo?

Nele, existem vários aspectos que podem ser examinados, porém interessa para esta postagem um pequeno detalhe: uma flor vermelha estilizada impressa entre os anos de "1918 e 2018".

Remembrance Poppy.

Essa flor não está ali por acaso, sendo que ela também aparece nos cinco selos que formam o bloco. Ela é um símbolo que representa e homenageia os soldados que morreram durante o conflito. Seu nome é Remembrance poppy e suas origens estão situadas nos Estados Unidos, durante as celebrações do armistício, em 1918 [1].

A criação desse símbolo é atribuída à Moina Michael (1869 - 1944), à época, voluntária na Associação Cristã de Moças, em Nova Iorque [2]. Inspirada pelo poema In Flanders Fields, escrito pelo Tenente-Coronel John McCrae (1872 - 1918), Michael promoveu o uso de papoulas vermelhas nas lapelas de casacos e paletós que, com o passar do tempo, se tornaram nos países de língua inglesa uma referência aos homens e às mulheres que morreram em serviço em todos os conflitos militares em que se envolveram [3].

Notas:

[1] - SCHÖNPFLUG, Daniel. A era do cometa: o fim da Primeira Guerra Mundial e o limiar de um novo mundo. São Paulo: Todavia, 2018, p. 9 - 11.
[2] - Ibidem, p. 10.