sexta-feira, 2 de outubro de 2015

De Riga para Drebkau.

A ocupação militar alemã em diversos países da Europa Oriental, durante a Segunda Guerra Mundial (1939 - 1945), também teve como reflexo alterações nos sistemas postais dos países ocupados. Entre outras coisas, novos tipo de marcas e selos postais foram produzidos para atender as necessidades decorrentes do contexto de ocupação militar. No caso do envelope que ilustra esta postagem, foram aproveitados selos regulares alemães, emitidos durante o começo da década de 1940, sendo aplicado neles uma sobre-estampa (Aufcruck) com o nome Ostland, que corresponde aos países bálticos sob ocupação militar alemã entre 1941 e 1945.

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Envelope circulado entre as cidades de Riga (Letônia, 21/05/1942) e Drebkau (Alemanha, 26/05/1942). Carta registrada e despachada pelo Correio Oficial dos Territórios do Leste, em Riga, conforme comprovam a etiqueta de registro (número 253 c) e os carimbos datadores/obliteradores aplicados sobre os quatro selos postais (Mi., D.B.1939/45 -  3, 11, 8 e 5), cujo valor facial total de 42 Centavos de Marcos corresponde aos portes do registro (30 Centavos) e de cartas em tráfego de longa distância com até 20 gramas de peso (12 Centavos). Correspondência interceptada e censurada na cidade de Königsberg (atual KaliningradoRússia), conforme revela a letra "a" impressa sobre a fita usada pelo censor para lacrar e liberar o envelope após a verificação do seu conteúdo.

Figura 1: frente do envelope. Coleção: Wilson de Oliveira Neto.

Figura 2: verso do envelope. Coleção: Wilson de Oliveira Neto.



sábado, 19 de setembro de 2015

Manifestação da SA, SS, NSKK e NSFK na Luitpoldarena, em Nuremberg.

Arrisco afirmar que o Nacional-Socialismo foi o fenômeno político que mais soube articular o seu imaginário com as "massas" das quais dependia o seu poder. "Ninguém melhor que Hitler compreendeu os princípios básicos da persuasão em massa e nenhuma organização trabalhou mais nem despendeu mais material no aperfeiçoamento da técnica de sua aplicação do que o Partido Nazista", reforça Barrie Pitt (1978, p. 6).

Neste contexto, os grandes comícios e os demais eventos públicos promovidos pelo NSDAP para uma enorme audiência foram atividades fundamentais para o próprio movimento nacional-socialista, das suas origens durante a década de 1920 até o seu final amargo, em 1945. Os congressos anuais do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães foram os principais eventos públicos promovidos pelo NSDAP em seu calendário.

A primeira "reunião" foi realizada em 27 de janeiro de 1923, na cidade de Munique, no sul da Alemanha. A partir de 1927, os congressos passaram a ocorrer em Nuremberg, até sua última edição, em 5 de setembro de 1938. As reuniões anuais do NSDAP foram chamadas oficialmente de "Reichsparteitag", "Dia Nacional do Partido", em uma tradução livre para o português. O evento de 1938 foi o mais grandioso de todos (WIKES, 1978).

Figura 1: flâmula de propaganda alemã alusiva ao Reichsparteitag de 1938, último evento do gênero, cujo tema foi a "Grande Alemanha" (Grossdeutschlans). Coleção: Wilson de Oliveira Neto.

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Vista panorâmica do Luitpoldarena, durante a realização de uma edição do Reichsparteitag, em Nuremberg. Nela foram retratados Adolf Hitler (1889 - 1945) e uma "manifestação" (appell) de integrantes das SA, SS, NSKK e NSFK, siglas estas que representam forças paramilitares pertencentes ao Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães - NSDAP. Embora as duas primeiras siglas sejam bem conhecidas entre o público, as duas últimas, NSKK e NSFK, não. Assim, respectivamente, elas significam: Nationalsozialistisches Kraftfahrkorps (Corpo Motorizado Nacional-Socialista) e Nationalsozialistisches Fliegerkorps (Corpo Aéreo Nacional-Socialista) (PIA, 1976). Ao fundo da imagem também aparece o "Salão de Honra" (Ehrenhalle), inaugurado em 1930. Comercializado no valor de 25 Centavos de Marcos, o equivalente ao porte para cartas simples com até 20 gramas de peso enviadas para o estrangeiro, esta vista panorâmica foi produzida pela editora Intra, de Nuremberg, e impressa pela Noris-Verlag G.m.b.H., também de Nuremberg. Pelo número "64" impresso no seu canto inferior direito, é certo que esta vista panorâmica fez parte de uma série, que foi comercializada durante o evento como uma das dezenas de suvenires oferecidos ao público que prestigiou o evento.

Figura 2: vista panorâmica do Luitpoldarena. Coleção: Wilson de Oliveira Neto.


Figura 3: detalhe ampliado. Coleção: Wilson de Oliveira Neto.

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Em 1933, o Luitpoldarena sofreu uma ampliação e aumentou sua capacidade de público para 150 mil expectadores. Junto com o "Campo Zeppelin" (Zeppelinhalle) e outros espaços, o Luitpoldarena era parte de um complexo enorme destinado para receber milhares de alemães durante a semana de realização do Reichsparteitag que, embora seu nome fosse "Dia Nacional do Partido", ele tinha a duração de uma semana.

Figura 4: áreas de concentração e desfile em Nuremberg para as reuniões anuais do NSDAP. Fonte: Wikipédia.

Figura 5: vista parcial do que sobrou da tribuna do Zeppelinhalle, em Nuremberg. Foto: Wilson de Oliveira Neto.

Referências:

PIA, Jack. Insígnias nazistas. Rio de Janeiro: Renes, 1976 (História Ilustrada da 2a. Guerra Mundial: especial cores; v. 1).
PITT, Barrie. O cerimonial do poder. In: WIKES, Alan. As reuniões de Nuremberg: os triunfos de Hitler. Rio de Janeiro: Renes, 1978 (História Ilustrada do Século da Violência; v. 5).
WIKES, Alan. As reuniões de Nuremberg: os triunfos de Hitler. Rio de Janeiro: Renes, 1978 (História Ilustrada do Século da Violência; v. 5).

sábado, 12 de setembro de 2015

Festa de Tiro de Rei (Schuetzenfest).

Uma das marcas registradas das regiões de colonização alemã no sul do Brasil é a manutenção de práticas culturais centenárias, muitas das quais introduzidas pelos primeiros colonos de língua alemã assentados durante o século 19. As sociedades de atiradores (Schuetzen-Vereine) e suas tradicionais festas de tiro de rei (Schuetzenfest) são exemplos deste patrimônio cultural que influencia nas memórias e nas identidades destes lugares, que hoje abrigam cidades, tais como Blumenau, Jaraguá do Sul, Joinville e São Bento do Sul (OLIVEIRA NETO, 2012).

As origens das agremiações de atiradores estão situadas na Europa Ocidental medieval. Elas chegaram ao Brasil com os primeiros imigrantes alemães, durante a primeira metade dos oitocentos, como por exemplo, em Santa Catarina, conforme relatam Petry (1982) e Soares (2002). O ponto alto do calendário dos clubes de tiro, como também são conhecidos, é atingido durante a festa do Tiro de Rei. Nela, entre bailes e banquetes, há a prova de Tiro de Rei, cujo vencedor é aclamado "Rei do Tiro". O cartão postal que ilustra esta publicação é, certamente, um registro de uma destas celebrações, registrada pelo fotógrafo Fritz Hofmann, em JoinvilleSanta Catarina.

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Cartão postal não-circulado, produzido pelo atelier do fotógrafo Fritz Hofmann, em Joinville, Santa Catarina. Sine die. Provavelmente, trata-se do registro de uma celebração de Tiro de Rei, em que aparecem os atiradores de dois clubes de tiro (de Joinville?), diferenciados pelos uniformes que vestem e pelas bandeiras que ostentam. Destaque para o caráter miliciano das sociedades de atiradores que, entre os oitocentos e a primeira metade do século 20, usavam uniformes semelhantes aos uniformes militares da época.

Figura 1: frente do cartão postal. Coleção: Wilson de Oliveira Neto.

Referências citadas:

OLIVEIRA NETO, W. O tiro e seus clubes em São Bento do Sul, Santa Catarina: origens, trajetórias e tradições de um patrimônio cultural. In: LAMAS, N. C.; MARMO, A. R. (orgs.). Investigações sobre arte, cultural educação e memória: coletânea. Joinville: UNIVILLE, 2012.
PETRY, S. M. V. Os clubes de caça e tiro na região de Blumenau: 1859 - 1981. Blumenau: Fundação Casa Dr. Blumenau, 1982.
SOARES, D. Folclore catarinense. Florianópolis: USFC, 2002.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Envelopes circulados japoneses com carimbos temáticos disponíveis para troca.

Prezados colecionadores.

A seguir, as imagens (frente e verso) de dois envelopes circulados japoneses com carimbos temáticos (ferrovias/locomotivas; Antártica) disponíveis para troca. Propostas através dos comentários.





sábado, 5 de setembro de 2015

De Porto Alegre para Zurique.

Durante uma guerra, todo o cuidado com a circulação de correspondência é pouco. Especialmente, durante um conflito militar tão amplo como a Segunda Guerra Mundial (1939 - 1945). Nenhum país, mesmo sendo amigo ou neutro, estava imune ao controle de suas correspondências enviadas ou recebidas, através dos diversos serviços de censura postal que existiram tanto entre os Aliados quanto entre os países do Eixo.

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Envelope circulado entre as cidades de Porto Alegre (Brasil, 08/05/1943) e Zurique (Suíça - sem data de chegada registrada). Trânsito pela 5a. Seção da Diretoria Regional dos Correios no Rio Grande do Sul (10/05/1943) [1]. Carta simples, transportada pelo serviço de correio aéreo brasileiro, conforme comprovam os carimbos datadores/obliteradores aplicados sobre os três selos regulares fixados sobre o envelopes, pertencentes à série "Netinha". Correspondência interceptada, censurada e liberada pelos serviços de censura postal alemão (Auslandsprufstelle Paris, "x") e britânico.

Figura 1: frente do envelope. Coleção: Wilson de Oliveira Neto.

Figura 2: verso do envelope. Coleção: Wilson de Oliveira Neto.

Nota:

[1] - Sobre as Diretorias Regionais e a presença da sua sigla nos carimbos datadores/obliteradores, ver: PETRUCCI, Victor Augusto. Carimbos postais brasileiros: período republicano, volume 1. Campinas: edição do autor, 2012.


sábado, 29 de agosto de 2015

Os desenhos das crianças do campo de concentração de Terezín.

O genocídio judeu, entre 1933 e 1945, é um dos fenômenos históricos mais marcantes do século 20. Resumidamente, ele consistiu na identificação, na reunião e no extermínio de, aproximadamente, seis milhões de judeus na Europa pelos nazistas e seus colaboradores existentes nos países ocupados durante a Segunda Guerra Mundial (1939 - 1945). Os campos de concentração foram parte da estrutura construída para viabilizar o genocídio (CARNEIRO, 2002)

O Gueto/Campo de Terezín.

Terezín é o nome de um pequeno município localizado na República Checa, próximo à capital Praga (Praha, em checo). Ele surgiu a partir de uma fortaleza militar construída durante o século 18, no contexto do governo do imperador Habsburgo José II e das guerras entre o Império Habsburgo e o Reino da Prússia (CHLÁDKOVÁ, 2005).

Durante a Segunda Guerra Mundial, o território checo esteve sob ocupação militar alemã. O município de Terezín foi transformado em um gueto/campo de concentração, que funcionou entre os anos de 1941 e 1945, quando, no dia 10 de maio, foi libertado pelo Exército Vermelho, conforme registra Ludmila Chládková (2005).

A vida cotidiana em Terezín foi muito dura e precária. Ao longo da guerra, morreram cerca de trinta e cinco mil prisioneiros, entre os quais jovens e adultos, homens e mulheres. "The overall balance was shattering: including the dead from the evacuation transports in the end of the war, in Terezín died in all 35 000 prisoners" (CHLÁDKOVÁ, 2005, p. 24).

As crianças de Terezín.

Entre 1944 e 1945, milhares de crianças judias foram deportadas, junto com seus pais ou oriundas de orfanatos, para Terezín. No campo, apesar de todas as dificuldades e de toda a violência, as lideranças judaicas procuraram manter uma improvisada rotina de educação formal, através de espaços denominados "Heime". Cada Heim atendia de 20 a 30 crianças e jovens com até 14 anos de idade. Lá, eram ministradas ilegalmente aulas e demais atividades intelectuais, tais como leituras, debates e dramatizações teatrais. Chládková (2005) menciona até práticas esportivas.

Os cartões postais a seguir, foram produzidos a partir dos desenhos feitos por crianças judias prisioneiras em Terezín, durante suas atividades escolares no campo. A maioria dos autores dos desenhos foi morta no complexo de campos de exertmínio de Auschwitz, em 1944. Não é conhecido o número de total de desenhos produzidos pelas "crianças de Terezín". Porém, há preservado no Museu Judeu de Praga uma coleção de quatro mil desenhos que documentam, através do olhar da criança, o drama e a violência do Holocausto (CHILDREN'S DRAWINGS FROM THE TEREZIN CONCENTRATION CAMP, s.n.t.).

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Série de quinze cartões postais ilustrados com os desenhos produzidos em Terezín por crianças judias, nas escolas clandestinas. Destas, somente uma sobreviveu à guerra. As demais morreram em Auschwitz, ao longo do ano de 1944. Coleção: Wilson de Oliveira Neto.


Referências.

CARNEIRO, Maria Luiza Tucci. Holocausto: crime contra a humanidade. São Paulo: Ática, 2002 (História em Movimento).
CHILDREN'S DRAWINGS FROM THE TEREZIN CONCENTRATION CAMP. s.n.t.
CHLÁDKOVÁ, Ludmila. The Terezin Ghetto. Terezín: s.n., 2005.

sábado, 8 de agosto de 2015

Propaganda anticomunista alemã.

Segunda Guerra Mundial (1939 - 1945) foi uma guerra entre potências. O historiador britânico Richard Overy (2014) afirma que, as potências que lideraram o Eixo (AlemanhaItália e Japão) firmaram um compromisso em mudar o sistema internacional vigente. Através da assinatura do Pacto Tripartite, em 27 de setembro de 1940, uma Nova Ordem deveria ser estabelecida na Europa, através da Alemanha e da Itália, e no Extremo Oriente, com o Japão.

Porém, a intenção de mudar o sistema político internacional da década de 1930 foi acompanhada de um forte política anticomunista, expressa, por exemplo, através da assinatura entre a Alemanha e o Japão do Pacto Anti-Komintern, em 25 de novembro de 1936. O anticomunismo foi parte do imaginário político do regime nacional-socialista. Conceitualmente, Comunismo e Nacional-Socialismo foram ideologias políticas completamente diferentes, tal como explicou o também historiador britânico Richard J. Evans (2010). Há na filatelia alemã, especialmente, da década de 1940, diversos exemplos de marcas e selos postais com forte caráter anticomunista, como por exemplo, o carimbo comemorativo que é o tema desta postagem.

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Envelope possivelmente circulado dentro da cidade de Berlim (Alemanha, 20/04/1943) - sem chegada registrada. Carta simples e com franquia isolada de 8 Centavos de Marcos (os 22 Centavos cobrados pelo selo são sobretaxa e não influenciavam no valor do porte pago pelo remetente), preço este pago para cartas com até 20 gramas, circuladas em "tráfego de curta distância". O selo postal fixado sobre o envelope (Mi. DR, 846) foi obliterado com um carimbo comemorativo de propaganda de guerra anticomunista, com destaque para a frase a seguir: "Unser Führer bannt den Bolschewismus". Durante o final de 1944, no contexto do avanço soviético sobre o território alemão e do colapso da própria Alemanha na Segunda Guerra Mundial, o imaginário político anticomunista foi reforçado entre civis e militares alemães, alimentado por uma forte máquina de propaganda, que nada mais fez que conduzir a Alemanha a um amargo fim (KERSHAW, 2015).

Figura 1: frente do envelope. Coleção: Wilson de Oliveira Neto.

Referências citadas.

EVANS, Richard J. A chegada do Terceiro Reich. São Paulo: Planeta, 2010.
KERSHAW, Ian. O fim do Terceiro Reich: A destruição da Alemanha de Hitler, 1944 - 1945. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
OVERY, Richard. A Alemanha firma suas posições: o teatro de guerra do Mediterrâneo e do norte da África. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2014 (Coleção Folha As Grandes Guerras Mundiais; v. 11).